Filho de Atalah, atalahzinho é.

 

Jorge Wolney Atalla, engenheiro especializado em petróleo, trabalhou com o general Ernesto Geisel na refinaria de Cubatão nos anos 50, e foi um dos financiadores da Operação Bandeirantes, organismo repressivo que torturou e assassinou estudantes, líderes sindicais e vários oposicionistas ou suspeitos de fazerem oposição ao regime militar em sua fase mais dura, nos anos 60 e 70.  Instalada nos fundos da 3º Delegacia de SP, no bairro da Vila Mariana, a Oban, como era chamada, precisava de financiamento, que foi dado voluntariamente por empresas como Supergel, Ultra, Associagás e a Coopersucar - Cooperativa Central dos Produtores de Açúcar, liderada por Jorge Wolney Atalla, empresário morto em 2009, e que em sua homenagem escreveram: “foi responsável pelo início do Proálcool no Brasil, e um dos responsáveis pelo salto que o Brasil deu em etanol. Considerado um ícone do setor sucroalcooleiro.”                                                                                                                               Jorge Wolney Attala, o Júnior, cresceu nas usinas da família em Jaú e um dia resolveu brincar de cineasta. Seu primeiro documentário, contra a lei ambiental que proíbe o corte manual da cana, insinua que bóia-fria prefere cortar cana, ganhando R$ 200,00 por mês, acordando às 2 da manhã, a fazer outra coisa da vida. Uma clara manipulação do diretorzinho em benefício dos negócios da família. Em “A vida em cana”, cujo duplo sentido Freud explica, o filho do usineiro vê poesia no atraso e glmouriza a pobreza através de  imagens bucólicas. Júris de festivais estrangeiros caíram na armadilha, acreditando que o corte da cana é a saída para quem, a maioria migrantes nordestinos, não tem aptidão para mais nada. Essa máxima do conformismo – "poderia ser pior" – dita o tom do filme. Ele chega a embrenhar-se pelo espírito de celebração evidenciado pela música "alegrinha". "Pelo menos distrai a cabeça e não tem gente mandando", diz uma adolescente. "Coisa melhor não vou conseguir", diz outro entrevistado. Falta apenas alguém dizer, à moda dos programas evangélicos exibidos na TV, que "a cana salvou minha vida".                                                                                                                                                                                                                 Mas os limites dos canaviais ficaram pequenos para a sanha demagógica do filho do usineiro. Seu segundo documentário, “Sequestro”, comprova que, assim como  papai, o playboy adora ver gente em cana. Exercendo o mesmo prazer mórbido em tripudiar sobre aqueles que já estão acertando suas contas com a sociedade. Tão apelativo quanto “Vida e Cana”, o último filme do playboy também tem emplacado prêmios em festivais, explorando a angústia de parentes de seqüestrados, enaltecendo a polícia e demonizando os seqüestradores.  Partindo da premissa que a onda de seqüestros no Brasil foi importada de Cuba, a última obra do filho do usineiro pretende representar o Brasil em Cannes. As chances são tão remotas quanto as de Emerson Fittipaldi voltar ao podium da fórmula I com seu Coopersucar. Um dos pontos altos do filme, dizem, é uma moça sendo estuprada por um seqüestrador de capuz. Qualquer semelhança com o que papi patrocinava nos porões da Oban não é mera coincidência.                                                                                                                                                                                                                Mas tamanha calhordice tem uma chance, ainda que mínima, de escapar da impunidade. Na 3ª Vara Cível de Pinheiros corre uma ação impetrada pelo seqüestrador Leonardo Moraes Precioso, hoje cumprindo pena por seus delitos, onde figuram como réus o Wolneyzinho e mais 13 envolvidos na produção e distribuição do filme, inclusive a Globo e o Google. Uma oportunidade preciosa para a Justiça se posicionar ao lado do mais fraco.

Este Horizonte não pode ser Perdido

 

Ao descer do onibus Aclimação em frente ao Conjunto Nacional, esta tarde, com o poster da Mostra Internacional de Cinema nas mãos, tive uma grata surpresa: o motorista me perguntou o que era aquele canudo e expliquei. Ele me contou, então que uma noite desssas, seu filho havia baixado da internet, um filme de 1937, falado em inglês, de nome Paraíso Perdido. Para seu espanto, o filme já naquela época mencionava o Dalai Lama.  Ele estava se referindo, nada mais nada menos, a Horizonte Perdido, aquele clássico de Frank Capra, no qual um casal de americanos descobre Shangrilá, o paraíso encantado onde o tempo parara. Não digo que o governo Lula tenha transformado o Brasil num Shangrilá. Mas, em toda minha vida, jamais ouvi um motorista de onibus comentar outro assunto visto na tv que não fosse futebol. Mais do que tirar da pobreza, o Governo Lula, através de seus programas de inclusão digital, também está tirando o povo da ignorância. Além do filme de Capra, o filho do motorista deve estar visumbrando pela internet, um mundo de informações, ao qual seus pais jamais tiveram acesso. E por mais que os frequentadores da Sala São Paulo se recusem a aceitar, isso também é educação. O povo hoje está assistindo Frank Capra! Pode ser só uma coencidência, mas Capra é o cineasta do otimismo, aquele que levantou o moral da nação americana nos díficeis anos 30. Anos 30 lembram alguma coisa? New Deal, Presidente Roosevelt, aquele governo que economistas do porte de André Singer e Delfim Neto comparam hoje ao governo Lula.... Falando em otimismo, amanhã é dia de garantir ao Povo Brasileiro mais 4 anos desse horizonte promissor!

Meu blog mudou para:

minhavidaumfilmeaberto.blogspot.com

Há muito tempo te amo

Ao contrário do que o título sugere, o primeiro filme do escritor francês Phillip Claudel não trata de uma paixão que levou a vida toda pra explodir. Enquanto escritor, Claudel, que não sei se é parente da Camille de Rodin, publicou um romance chamado “Desisto”, em que o narrador, psicólogo de formação, trabalha num hospital com a missão de avisar os familiares dos pacientes que morrem.  Descrito por uma crítica portuguesa como “uma descida ao inferno da perda e do desespero”, o tema tem tudo a ver com o mistério de “Há muito tempo te amo”. No filme em que Krisitin Scott Thomas interpreta uma ex-presidiária tentando retomar a vida normal na casa da irmã caçula, os segredos são revelados à saca-rolha. E o bacana é esperar, pacientemente,  que os fatos se esclareçam. Nesse meio tempo, o espectador pode observar a capacidade do ser humano de julgar e condenar pessoas sem ter nenhuma idéia dos motivos que as levaram a cometer esse ou aquele delito. E por incrível que pareça, os julgamentos, na maioria dos casos, começam dentro de casa. São os familiares mais próximos, por suas palavras, ou por seus silêncios quem se encarrega de queimar o filme do sujeito, detruir sua reputação, segregá-lo do clã familiar, como se fosse um leproso. Apesar de, graças a Deus, nunca ter chegado perto do drama da protagonista de “Há muito tempo te amo”, vivienciei julgamentos segregacionistas durante boa parte da minha vida. É incrível como ousadia e liberdade incomodam os covardes. Mas assim como a justiça, a verdade um dia vem à tona e os “fazedores de caveiras” perdem a voz.

Anton Tchecov

   

No primeiro capítulo de “Barbaridades Críticas”, livro que meu ex-marido Marcius Cortez acaba de publicar, ele compara Tchecov  a outros escritores russos, com vantagens para o primeiro. Como nunca tinha lido nada desse autor, passei a semana garimpando contos dele na internet e gostei.  Ontem, tive o prazer de conhecê-lo melhor no belo “Moscou” de Eduardo Coutinho. Documentário sobre os ensaios da peça “As três irmãs” pelo Grupo mineiro Balcão, o filme confirma tudo que Marcius comenta sobre o olhar do escritor russo sobre as coisas simples da vida. Segundo ele, Anton tinha como proposta não dar ênfase a problemas políticos, econômicos ou sociais. Ufa! Que alívio para esses nossos dias de pesadelo Sarnento. Na peça, o russo fala do dia a dia daquelas três irmãs cujo pai havia falecido no aniversário da caçula e a família havia se mudado pro interior. Ali tem um pouco da família de cada um de nós. E pra reforçar essa sensação, nada tão “família” quanto o delicioso sotaque mineiro do elenco.  Alguém uma vez falou que se o artista quiser ser universal, deve falar do próprio quintal.  “As três irmãs” é uma prova disso.  E mais que universal, a peça também é atemporal. A fala do personagem que se apaixona por uma das irmãs mas não tem coragem de largar a mulher por culpa de ter dado uma mãe tão péssima pras filhas é o maior exemplo da perenidade da obra. Belo filme, bela peça. Quanto ao livro, Marcius, ainda não cheguei na segunda crônica. Mas só de ter me apresentado Tchecov, já valeu.

Nome Próprio

Como primeiro filme que eu consigo baixar inteirinho na internet e assistir em meu notebook, o destino não poderia ter reservado título melhor. Dirigido pelo experiente Murilo Salles, “Nome Próprio” navega quase o tempo todo na web. Com a cada vez mais madura Leandra Leal no papel de uma blogueira em busca de seu grande amor, não é uma daquelas babaquices de casais que se conhecem em chats ou fazem sexo virtual. A Camila Alves, inspirada em personagens da escritora Clarah Averbuck faz sexo sim. Mas na sua cama ou nas dos inúmeros namorados que arruma através do seu blog, ou não. Apesar do jeitinho de moderninha blasé, a garota é uma romântica inveterada. Não faz nada que as mulheres dos tempos pré-internet não tenham feito, inclusive eu. A diferença está só na forma. O desespero face o pé-na-bunda é o mesmo. A fantasia de acreditar que cada novo namorado é o homem da sua vida também é a mesma. Carência? perguntarão alguns. Pode ser. Afinal, nos 120 minutos do filme, a garota não recebe um telefonema da família. Mas também pode ser só uma maneira corajosa de lidar com os sentimentos. No fundo, todas nós somos acometidas, em algum momento da existência, do tal Complexo de Cinderela, tão propalado nos 80. Algumas beijam o primeiro sapo que aparece na frente e passam o resto da vida fingindo que ele é seu príncipe encantado. Principalmente se tiver grana. Outras preferem correr atrás dos seus sonhos, mesmo que seja pra descobrir um dia, que não passavam de quimeras. De uma maneira ou de outra, toda mulher tem um lado Camila, nem que seja enrustido nos devaneios. Claro, é um lado que assusta os homens. Principalmente aqueles que usam bombachas.

À Deriva

 

Ao contrário do Zanin do Estadão que acha o último filme de Heitor Dhalia melhor que os anteriores, ainda prefiro Nina aos dois últimos. Tá certo que um roteiro inspirado em Dostoiekski, alguns dirão que já é meio caminho andado. Nem sempre. Às vezes um péssimo livro pode dar um filme excelente. Falar nisso, vi o trailler de um, baseado numa obra do Paulo Coelho que deu vontade de assistir. Mas voltando ao “Nina”, ali Heitor foi extremante feliz na adaptação. Começando pelo elenco onde Simone Spoladore dá um show de interpretação, à altura da parceira Miriam Muniz. “Cheiro de Ralo”. até gostei na época, mas hoje lembro dele com uma certa preguiça. Não aguento mais o excesso de estrelismo de Selton Melo. Quanto a “À Deriva”, confesso que esperava mais. Talvez até pela onda desencadeada pela participação do filme em Cannes. Não é ruim. A maneira com que Dhalia trata o tema da separação do casal e a forma com que ela afeta as crianças passa uma verdade. Tem até uma pitada de Freud na relação da adolescente com o namorado da amante do pai. Mas achei um filme meio arrastado. E pela primeira vez, senti na filmografia de Dhalia uns vícios da sua experiência publicitária. Pôr-de-sol, praia e adolescentes saltitantes estão por demais presentes em tudo quanto é comercial: de poupança a protetor solar. Tenho a impressão de que quando Heitor filmou Nina, ele ainda era criativo de agência. Se tivesse continuado, “À Deriva” talvez fosse melhor.Ou não.

O cinema, o estômago e o fígado

 

Li em algum lugar que é preciso ter estômago pra digerir “Downloading Nancy”, o filme de estréia do sueco Johan Renck. Eu não tive. Com Maria Belo no papel de uma mulher abusada na infância pelo tio, o filme mergulha nesse nicho obscuro da internet onde pessoas desesperadas se encontram pra acabar de se destruir. Desprezada pelo marido, a infeliz recorre à web pra marcar encontros com outro sujeito. Até ai, nenhuma novidade. Só que Nancy não espera que o outro a faça feliz. Mas sim que a mate. E entre um encontro com o amante  e uma sessão de psicanálise com a boquiaberta terapeuta, a moça ainda gostava de se mutilar. Não que não existam pessoas assim. Eu mesma conheci uma publicitária que era chegada a uma gilette. Um dia trocou-a por um Colt 45 e foi pro beleléu porque a filha preferiu passar o Natal com o pai e sua nova familia. Essas coisas embrulham o estômago. Pra meu alívio, o Telecine Cult estava exibindo “Um convidado bem trapalhão" de Blake Edwards. Chamei meu filho pra assistir. Eu só lembrava da cena hilária em que Peter Sellers caía na piscina de uma mansão em Hollywood, em meio a uma festa. Mas o filme é uma sucessão de trapalhadas do começo ao fim. Esse genio da comédia faz  um indiano idiota, em meio a um rega-bofe na casa de um general. Rachamos o bico. Entre o personagem de Sellers e o garçon bêbado era dificil dizer qual o mais estabanado. Uma estética bem anos 70, o filme deságua, literalmente, num pastelão total com direito a elefante na piscina e banho de espuma coletivo. Bons tempos em que, ao invés de embrulhar o estomago, o cinema desopilava o fígado.

Ser Digno de Ser

Este é o título espanhol do belo filme do romeno Radu Mihaileanu, premiado em Berlim, em 2005. “Va, vis et deviens” conta a história de um garoto etíope que, em 1984, pega carona com os oito mil falashas, judeus negros da Etiópia, que fugiam do regime pró-soviético, via Sudão, em busca da terra prometida em Israel. Pra salvar sua vida, a mãe que já havia perdido um filho pros comunistas batiza-o de Salomão e o embarca clandestinamente num avião da chamada “Operação Moisés.” Esses etíopes se diziam descendentes da Rainha de Sabá e mantinham algumas tradições judáicas. Chegando em Jerusalém, o falso judeuzinho negro é adotado por um casal francês de esquerda e criado como filho. Mas Salomão se sente um peixe duplamente fora d’água. Único negro de uma família branca, Schlomo é obrigado a repetir a toda hora pras autoridades israelenses os nomes dos antepassados, Sara e Isac, pra confirmar a ascendência judáica. As coisas pioram quando os rabinos descobrem que o menino não é circuncisado. Mas pegam fogo mesmo quando, já adolescente, o neguinho de kipá engata um namoro com a linda filha do rabino local. Pra baixar a poeira, os pais adotivos enviam Salomão a Paris. Sete anos depois, ele volta com um diploma de médico debaixo do braço e muita vontade de rever a mãe verdadeira. E decide praticar sua medicina na terra natal. Não sem antes selar o compromisso com a linda Hanna, que há 10 anos o espera. Após a festança, com todos os Havanaguilla a que tinha direito, Schlomo confessa à amada seu segredo. Se tivesse confessado que era gay, a menina teria se emputecido menos. Nessa hora, a mãe adotiva aparece pra fazer o meio de campo e a paz conjugal é restabelecida. Daí pra frente o filme resvala pra pieguice. O encontro com a mãe na barraca do deserto tem pitadas de novela da Gloria Perez. Aliás, uma família negra com um pé na Rocinha e outro no Sudão pode ser um bom tema pra próxima novela da autora. Ela não adora uma ponte aérea intercontinental?

O crítico de Bagé

Sempre soube que os gaúchos eram machistas, mas a crítica de L. C. Merten sobre “De repente Califórnia” do diretor Jonah Markowitch é um  verdadeiro tratado de homofobia. Apesar do estigma de filme gay, “De repente” não tem nada a ver com a baixaria que esse tipo de produção costuma mostrar. Uma espécie de “Brubeck Mountain” sobre as ondas, o filme trata de uma relação homossexual entre rapazes com a delicadeza que muitas vezes encontramos nos filmes sobre lésbicas, ou até mesmo sobre casais hetero. Mas apesar do foco no relacionamento entre Zack e Shown, o diretor discute outras questões que talvez tenham passado batido diante dos olhos dos machos apavorados. Com certeza eles não se tornariam boiolas de se prestassem atenção no relacionamento de Zach com a irmã abusadora e o fofo do sobrinho Cody. A irmã é uma puta folgada que explora os serviços de baby-sitter do protagonista pra correr atrás do primeiro macho que aparece. Zack, que é gente boa e louco pelo sobrinho, sacrifica sua vida numa lanchonete, em vez de cuidar do seu futuro, só pra não abandonar o garoto. E é justamente o namorado quem abre seus olhos pros abusos da irmã e o incentiva a ir atrás dos seus sonhos. Mas como o garoto não tem culpa da mãe que tem, os titios acabam adotando-o no final. Pra provar que mais valem 2 pais na mão do que uma mãe voando.

Testemunha de Acusação

Não sei se já havia assistido a esse filmaço de Billy Wilder. Tinha uma vaga idéia de que era um filme de tribunal e lembrava da figura marcante do personagem de Charles Laughton (quem esqueceria?). Mas não lembrava de o quanto Wilder tinha explorado, no filme, a veia cômica do rotundo ator. Com um humor hilário e ranzinza a la Paulo Francis, Laugton faz um advogado às vésperas da aposentaria por problemas de saúde, que resolve defender um cara de bobão acusado de ter matado uma ricaça. Advogado e platéia passam o filme inteiro acreditando que o cara era bobão mesmo. E que sua linda e loura esposa alemã, nada mais nada menos que Marlene Dietrich, era o cão. Mas, em se tratando de um roteiro baseado em Agatha Christie, o público não perde por esperar: um turning point atrás do outro. Obra de mestre! Não vou contar mais nada pra não estragar o prazer de quem ainda não assistiu a essa preciosidade de 1957. O Telecine Cult exibiu nessa sexta-feira. E as boas locadoras devem ter pra alugar.

O pai de Daniel

 

Conheci o filho de Arnaldo Batista pequenininho, no colo de Marta, na psicodélica casa do Gernot, meu inesquecível amigo austríaco, quase tão Loki e seguramente tão sensível quanto Arnaldo. Ontem à noite, depois da pré-estréia do emocionante documentário sobre o cabeça dos Mutantes, alguém perguntou porque Daniel adulto não aparecia no filme. Arnaldo contou, então, que o garotinho loiro do filme, da idade do meu filho Pedro, se tornou rabino e hoje vive no exterior. Isso me lembrou o livro de Nilton Bonder, outro rabino, que fala de transgressões. O mundo precisa de loucos como Arnaldo. Como sempre, o Brasil só reconhece seus talentos depois que as celebridades lá de fora se curvam diante deles. Foi preciso o aplauso de Kurt Colbain e a admiração de Sean Lennon vir à tona, pra esse País de vira-latas reconhecer a genialidade de Arnaldo. O filme é sobre isso. Começa com a formação da banda e seu lançamento pro grande público no Festival da Record. Só a coragem de escalar aqueles meninos malucos pra tocar seu "Domingo no Parque" já justifica Gilberto Gil ter chegado onde chegou. A Tropicália, movimento nascido no seio da Ditadura Militar, foi semeada naquele palco. Grande Rogério Duprat, outro visionário. Assistir a esse filme me deu  saudades daquela época e de muitas pessoas que convivi trabalhando em Propaganda. Não que nas agências não houvesse carreiristas e filhos da puta. Claro que havia, e de sobra. Mas a liberdade que a propria condição de criador impunha, acabava atraindo pra profissão pessoas sensíveis e antenadas. Temo que isso não aconteça mais. A Publicidade foi tomada pelo Business e os malucos deram lugar a nerds e almofadinhas, vazios e consumistas, que tem em Roberto Justos seu ícone máximo. Gente não menos insuportável que boa parte dos barnabés com quem convivo. O que muda é a embalagem, sempre carimbada com alguma griffe da moda: Osklen, Redley, Daslu...

Win Wenders e aprendendo

 

Dessa vez não vai dar pra concordar com L. C. Merten que adorou a vaia que “Palermo Shooting” recebeu em Cannes. Vai ver que o gaúcho pegou uma dor de barriga com algum escargot da Croisette. O último filme de Wenders é lindo. Uma fotografia sublime e uma trilha estonteante levam o espectador a viajar junto com aquele fotógrafo pelas ruas da decadente Palermo, que vendo no filme, me arrependi de não ter explorado mais. (Ao descer do navio, vindos de Nápolis, imediatamente alugamos um carro pra percorrer o interior da Sicilia). Até concordo que o discurso do protagonista diante da banalização da fotografia esteja meio manjado. Wenders, ídolo de 10 entre 9 cineastas da geração que eu namorei, casei e tive filhos, sempre foi um cineasta “cabeça”. Em alguns momentos, confesso que o acho meio chato. Como, às vezes, também acho Godard um mala e Glauber Rocha, um porre. (Ainda bem que nenhum ex meu lê esse blog!). Mas isso não é de hoje. Sempre foi. Vá lá que as drogas tenham mandando pro espaço uma fatia considerável dos seus neurônios. Mas o que sobrou ainda rende uma obra bem mais consistente que a de muitos fazedores de filmes que se apavoram ante o primeiro baseado.  Quanto ao esconde-esconde com a morte, atire a primeira pedra quem, depois dos 50, já não tomou um golinho dessa água. Mais importante que a presença da morte, aliás simpaticíssima na pele do grande Dennis Hopper, é o diálogo do fotógrafo com a vida, representada pela linda restauradora de obras clássicas. É a jovem Flávia quem lembra ao dinâmico fotógrafo de moda que a vida pode ser vivida aos poucos, sem pressa, sem prazos pra serem cumpridos, sem reuniões pra serem agendadas e depois canceladas, sem estresse. Como é bom lembrar essas coisas. Nessas férias, estou adorando perder tempo. Sair de casa só pra ir ao sapateiro ou comprar agulha no bazar. Levar meu neto ao Parque da Mônica. Bater perna no Bom Retiro e depois comer uma deliciosa bureka na Casa Búlgara. Almoçar em casa e assistir sessão da tarde fazendo tricô. Coisas simples fazem a vida passar mais devagar. Quanto à dedicatória do filme a Bergman e Bertolucci, me desculpe o crítico do Estadão, mas o alemão tem todo o direito de dedicar seu filme a quem lhe der na telha.  

Trocadilho em chamas

 O título do filme de Guillermo Arriaga em inglês, "Burning plain" é um trocadilho com "Burning Plane" e também a chave da pegadinha com que o roteirista / diretor nos brinda em seu longa de estréia. Nada contra trocadilhos até porque como publicitária usei e abusei desse recurso. Mas não acho que a pegadinha tenha acrescentado muito ao primeiro filme do roteirista de "Amores Brutos", "21 gramas" e "Babel". Depois da fértil parceria com o também mexicano Alejandro González Iñárritu, a dupla se desentendeu e Arriaga enveredou por carreira solo. A exemplo da trilogia mencionada, "Planície em Chamas" abusa das idas e vindas, desta vez mais no tempo que no espaço, até porque, ao contrário dos filmes de Iñárritu, aqui não temos vários núcleos, apenas vários tempos do mesmo. Charlize Théron está linda como a garota traumatizada que vê a mãe queimar, literalmente, no fogo do inferno depois de ter pulado a cerca com um mexicano. Mas as armadilhas do roteiro acabam unindo a garota ao filho do amante da mãe e a história, daí pra frente, se complica um bocado. Uma Kim Bassinger madura e ainda bonita segura, com classe, o papel da esposa adúltera, mutilada e carente, que encontra nos olhos do amante o resgate pra sua auto-estima. Não dá pra dizer que o debut de Arriaga seja um "filmaço". Ele prova que um bom roteiro é apenas um dos ingredientes de um bom filme. Claro que ajuda. Mas ainda falta ao estreante, o que é muito compreensível, o timing da montagem do seu conterrâneo. Fora o elenco de estrelas como Brad Pitt, Gael Garcia Bernal, Sean Penn, Naomi Watts e Cate Blanchett, que por si só já garantem momentos de frisson. Não sei se faltou grana pra contratar galãs à altura de Charlise e Kim, ou se faltou mesmo foi a velha e boa "cancha" que só se adquire com o tempo. Por enquanto, como diretor, o bonitão que extasiou as platéias femininas no Flip e no Roda-Viva, continua sendo um ótimo roteirista.

O Oscar entre a vida e a morte
    
 
Apenas um ano separa as duas premiações: o alemão "Os falsários" levou o Oscar de melhor filme estrangeiro, no ano passado. O japonês "A partida" abocanhou a estatueta este ano. Enquanto o filme do austriaco Stefan Ruzowitzky, discute táticas de sobrevivência num campo de concentração nazista, a obra de Yojiro Takita se debruça de maneira emocionante sobre o espinhoso tema da morte. Baseado na história real de Adolf Burger, um dos prisioneiros "contratados" pela SS pra falsificar dinheiro pro III Reich, "Os falsários" mexe com questões morais. Pra escapar dos fornos de extermínio, aqueles judeus, tratados pior que cachorro pelos oficiais alemães, acabaram colaborando pra financiar a megalomania de Hitler. A Alemanha estava falida. Era com esse dinheiro "fabricado" que o insano continuava alimentando seus delírios de dominar o mundo. Quando Burger, o gráfico da equipe, começa a sabotar a produção dos dólares, atrai a desconfiança dos companheiros, apavorados face o cheiro de carne queimada que entrava pelas janelas do galpão. O filme remete a "A alma imoral", de Nilton Bonder, que li recentemente. O rabino fala sobre moralidade do corpo e imoralidade da alma, apontando a diferença entre o "correto" e o "bom". No caso do filme, ajudar o inimigo não era moralmente "correto". Mas era "bom", na medida em que garantia a sobrevivência por algum tempo. Quantas vezes agimos corretamente, observando regras sociais, familiares e religiosas, mas por dentro estamos loucos pra chutar o pau da barraca? No pensamento de Bonder, são esses chutes que levam o mundo adiante. Sem transgressões, a humanidade não teria evoluído. Pra quem tem alergia a regras como eu, a tese é bastante confortadora. Mas voltando aos melhores estrangeiros, o alemão nos leva a uma reflexão sobre como o certo e o errado podem ser relativos. Já o nipônico mostra como o tempo perdido em rusgas familiares um dia pode se transformar em culpas e ressentimentos diante de um adeus final. Também sublinha a importância da cerimônia de despedida, mais até pros vivos do que pros que se vão. E aí  entendemos porque é tão importante pras famílias que os corpos das vítimas do voo 474 da Air Fance sejam resgatados.
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