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Última parada 174 
Na versão Barreteana do sequestro de ônibus que propagou a violência carioca pelo mundo, " parada" tem o sentido de "empreitada" da gíria das Comunidades. Apesar de não ser muito fã da cinematografia da família, gostei do filme. Mais do que do midiático episódio que estarreceu o mundo, Bruno trata da vida pregressa de seu protagonista. Impossível cruxificar aquele menino, nascido num tempo e num lugar onde crianças pobres são entregues à própria sorte. Depois de ter a mãe assassinada antes da adolescência, Sandro é adotado por tios que insistem pra que ele estude. Mas o garoto, que gosta de compor rap, não quer nada com as letras. Também, vai saber como era a escola! Analfabeto e iludido, atravessa a Baía de Guanabara pra realizar o sonho da mãe de "se dar bem" em Copacabana. Quase "se dá mal" na Candelária, reduto de crianças de rua onde aprende a cheirar cola, consumir drogas, beijar meninas e fugir da polícia. É ali também que a sorte passa por ele pela primeira vez. Sobrevivente do vergonhoso massacre da Candelária, Alessandro cai nas graças de tia Valquiria, militante de uma ONG, que também insiste pra ele estudar e conseguir um trabalho honesto. Quem disse que ele quer? Seduzido pela vida fácil de cantor de rap, Sandrinho acaba na Funabem depois de cometer assaltos no trânsito. Ali, conhece um xará com pedigree no mundo do crime. Alessandro 2 era filho do famoso "Meleca" do Comando Vermelho e de uma ex-viciada que se regenerou e virou evangélica. Numa armadilha do destino, a crente jura que Sandrinho é o filho que "Meleca" lhe tomou ainda no berço. Faz de tudo pra regenerá-lo. Mas ele vira as costas pra sorte pela segunda vez. Se sua cabeça estivesse menos "embarulhada" pelas drogas, talvez farejasse na opção evangélica da falsa mãe, a porta pro sonhado sucesso. Nada, hoje em dia, rende tanta grana quanto o mercado fonográfico evangélico. Crente acha pecado comprar cd pirata e alimenta a indústria. Se tivesse seu talento cooptado por Jesus, Sandrinho não ganharia nenhum VMB. Mas, em compensação jamais embarcaria naquele fatídico 174.
Escrito por cris1949 às 20h14
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21 gramas em Barueri 
"21 gramas" do mexicano Alejandro Gonzalez Inarritu é tão bom quanto os outros dois filmes da trilogia do diretor, que começa com "Amores Brutos" e termina em "Babel". Em todos eles, pula na tela o talento do grande roteirista Guillermo Arriaga, que infelizmente encerrou sua parceria com Inarritu. Assisti ao filme pensando comigo: só a imaginação fértil de um escritor poderia conceber uma tragédia como a da personagem de Naomi Watts que perde o marido e duas filhas num estúpido atropelamento. Ao desligar a tv me deparo com a seguinte notícia na Internet: "Mulher de 56 anos sofre um infarto e morre um dia depois de presenciar o marido e o filho baleados em um assalto em Barueri". O marido morreu na ação e o filho, socorrido em estado grave, teve a morte cerebral confirmada após exames. Não é nem que a vida ande imitando a arte. Está muito mais cruel do que ela. O assassino do filme, um alcóolatra tentando abandonar o vício, numa interpretação magistral de Benício Che del Toro, amarga sua culpa até os úiltimos fotogramas. Desesperado por não encontrar na religião o conforto que a garrafa lhe propocionava, se entrega à polícia, tenta se enforcar na cadeia e vai atrás da sua punição. Já os suspeitos do crime de Barueri foram detidos, um deles ficou preso e o outro foi liberado após averiguação. Não tá na hora de averiguar o que passa pelo cérebro de um sujeito desses? Cocaína? Crack? Ódio social? Falta de perspectiva? Nem nas guerras a vida humana foi tão banalizada quanto tem sido, ultimamente, nas nossas grandes capitais. Pobres ou ricos, não importa. Escreveu não leu, seja polícia, seja bandido, sai tudo atirando. Não culpemos a miséria porque na Índia também tem fome e não tem esse grau de violência. Nossa desigualdade social seria mais gritante? Nossos apelos de consumo mais desenfreados? Ou será a a lacuna da falta de Educação que acaba sendo preenchida na cabeça da nossa juventude pelos apelos da vida fácil? Pablo Patrick da Silva, tinha 21 anos. Nunca saberemos se perdeu 21 gramas na hora de morrer. Como a esposa do filme, a família também doou os órgão. Tomara que algum Sean Penn faça bom uso dele.
Escrito por cris1949 às 01h06
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Anatomia de um crime  Apesar de ser fã de filmes de tribunal desde criancinha, só conhecia desse clássico do Otto Preminger a famosa vinheta de abertura, de autoria do grande Saul Bass, ídolos de 9 entre 10 publicitários da minha geração. Filmaço. Baseado no livro do juiz John D. Voelker, o filme do diretor austríaco radicado nos Estados Unidos prova que um bom advogado é, na verdade, um ator. Não por acaso, antes de existirem cursos de teatro no Brasil, atores do porte de um Zé Celso Martinez Correia, Renato Borghi, Ary Fontoura formavam-se nas famosas Arcadas. O próprio Otto Preminger, tinha doutorado em Direito. E o ator que faz o juiz, Joseph N. Welch, também trabalhara como advogado. Dssa reunião de gente "do ramo" só poderia resultar um clássico entre os filmes de tribunais. James Stewart defende um marido ciumento (Ben Gazzara jovem e com cabelo) do assassinato do sujeito que teria estuprado sua nada recatada esposa. George C. Scott, na pele do promotor, quer mandar o assassino pra cadeia, chegando a insinuar que a "estuprada" teria provocado a libido do falecido, tese até hoje comum em crimes dessa natureza. Como vêm, os indícios eram bem mais favoráveis à acusação. Ainda mais se levarmos em conta que para um juri dos anos 50, mulheres como Laura (Lee Remick), que não usavam cinta e perdiam a calcinha no bosque, não podiam valer grande coisa. Mesmo assim, Dr. Paul Biegler (Stewart), vira o jogo "na raça". E esse é o bacana do filme. Ele não apresenta provas contundentes de última hora. Vira o jogo somente com sua atuação. Biegler não tem medo de ser pentelho: queixa-se o tempo todo da ma-fé da Promotoria, reclama, protesta, bate o pé, leva bronca do juiz, pede desculpas. Por mais que o magistrado mande os jurados ignorarem a chiadeira, como bem observa o réu durante o julgamento, estes já tinham ouvido as queixas. Essa é a grande mensagem de "Anatomy of a murder": "Encha o saco, reclame, bata o pé, ponha o dedo na ferida, não desista diante das evidências!". Mesmo que tal atitude irrite autoridades prepotentes e burocráticas, ela costuma funcionar. Recentemente, me dei o direito de reclamar ao ser obrigada a executar tarefas braçais que afetavam minha saúde. Irritei, incomodei, levei bronca, pedi desculpas. Mas consegui impedir que a insanidade da chefia comprometesse ainda mais minha já tão combalida coluna vertebral. Sei que isso não vai aumentar minha popularidade no trabalho. Mas quem disse que eu quero? Minha saúde é muito mais importante que meu Ibope.
Escrito por cris1949 às 07h40
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