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O pai de Daniel  Conheci o filho de Arnaldo Batista pequenininho, no colo de Marta, na psicodélica casa do Gernot, meu inesquecível amigo austríaco, quase tão Loki e seguramente tão sensível quanto Arnaldo. Ontem à noite, depois da pré-estréia do emocionante documentário sobre o cabeça dos Mutantes, alguém perguntou porque Daniel adulto não aparecia no filme. Arnaldo contou, então, que o garotinho loiro do filme, da idade do meu filho Pedro, se tornou rabino e hoje vive no exterior. Isso me lembrou o livro de Nilton Bonder, outro rabino, que fala de transgressões. O mundo precisa de loucos como Arnaldo. Como sempre, o Brasil só reconhece seus talentos depois que as celebridades lá de fora se curvam diante deles. Foi preciso o aplauso de Kurt Colbain e a admiração de Sean Lennon vir à tona, pra esse País de vira-latas reconhecer a genialidade de Arnaldo. O filme é sobre isso. Começa com a formação da banda e seu lançamento pro grande público no Festival da Record. Só a coragem de escalar aqueles meninos malucos pra tocar seu "Domingo no Parque" já justifica Gilberto Gil ter chegado onde chegou. A Tropicália, movimento nascido no seio da Ditadura Militar, foi semeada naquele palco. Grande Rogério Duprat, outro visionário. Assistir a esse filme me deu saudades daquela época e de muitas pessoas que convivi trabalhando em Propaganda. Não que nas agências não houvesse carreiristas e filhos da puta. Claro que havia, e de sobra. Mas a liberdade que a propria condição de criador impunha, acabava atraindo pra profissão pessoas sensíveis e antenadas. Temo que isso não aconteça mais. A Publicidade foi tomada pelo Business e os malucos deram lugar a nerds e almofadinhas, vazios e consumistas, que tem em Roberto Justos seu ícone máximo. Gente não menos insuportável que boa parte dos barnabés com quem convivo. O que muda é a embalagem, sempre carimbada com alguma griffe da moda: Osklen, Redley, Daslu...
Escrito por cris1949 às 10h49
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Win Wenders e aprendendo 
Dessa vez não vai dar pra concordar com L. C. Merten que adorou a vaia que “Palermo Shooting” recebeu em Cannes. Vai ver que o gaúcho pegou uma dor de barriga com algum escargot da Croisette. O último filme de Wenders é lindo. Uma fotografia sublime e uma trilha estonteante levam o espectador a viajar junto com aquele fotógrafo pelas ruas da decadente Palermo, que vendo no filme, me arrependi de não ter explorado mais. (Ao descer do navio, vindos de Nápolis, imediatamente alugamos um carro pra percorrer o interior da Sicilia). Até concordo que o discurso do protagonista diante da banalização da fotografia esteja meio manjado. Wenders, ídolo de 10 entre 9 cineastas da geração que eu namorei, casei e tive filhos, sempre foi um cineasta “cabeça”. Em alguns momentos, confesso que o acho meio chato. Como, às vezes, também acho Godard um mala e Glauber Rocha, um porre. (Ainda bem que nenhum ex meu lê esse blog!). Mas isso não é de hoje. Sempre foi. Vá lá que as drogas tenham mandando pro espaço uma fatia considerável dos seus neurônios. Mas o que sobrou ainda rende uma obra bem mais consistente que a de muitos fazedores de filmes que se apavoram ante o primeiro baseado. Quanto ao esconde-esconde com a morte, atire a primeira pedra quem, depois dos 50, já não tomou um golinho dessa água. Mais importante que a presença da morte, aliás simpaticíssima na pele do grande Dennis Hopper, é o diálogo do fotógrafo com a vida, representada pela linda restauradora de obras clássicas. É a jovem Flávia quem lembra ao dinâmico fotógrafo de moda que a vida pode ser vivida aos poucos, sem pressa, sem prazos pra serem cumpridos, sem reuniões pra serem agendadas e depois canceladas, sem estresse. Como é bom lembrar essas coisas. Nessas férias, estou adorando perder tempo. Sair de casa só pra ir ao sapateiro ou comprar agulha no bazar. Levar meu neto ao Parque da Mônica. Bater perna no Bom Retiro e depois comer uma deliciosa bureka na Casa Búlgara. Almoçar em casa e assistir sessão da tarde fazendo tricô. Coisas simples fazem a vida passar mais devagar. Quanto à dedicatória do filme a Bergman e Bertolucci, me desculpe o crítico do Estadão, mas o alemão tem todo o direito de dedicar seu filme a quem lhe der na telha.
Escrito por cris1949 às 19h41
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