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Meu blog mudou para: minhavidaumfilmeaberto.blogspot.com
Escrito por cris1949 às 00h06
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Há muito tempo te amo 
Ao contrário do que o título sugere, o primeiro filme do escritor francês Phillip Claudel não trata de uma paixão que levou a vida toda pra explodir. Enquanto escritor, Claudel, que não sei se é parente da Camille de Rodin, publicou um romance chamado “Desisto”, em que o narrador, psicólogo de formação, trabalha num hospital com a missão de avisar os familiares dos pacientes que morrem. Descrito por uma crítica portuguesa como “uma descida ao inferno da perda e do desespero”, o tema tem tudo a ver com o mistério de “Há muito tempo te amo”. No filme em que Krisitin Scott Thomas interpreta uma ex-presidiária tentando retomar a vida normal na casa da irmã caçula, os segredos são revelados à saca-rolha. E o bacana é esperar, pacientemente, que os fatos se esclareçam. Nesse meio tempo, o espectador pode observar a capacidade do ser humano de julgar e condenar pessoas sem ter nenhuma idéia dos motivos que as levaram a cometer esse ou aquele delito. E por incrível que pareça, os julgamentos, na maioria dos casos, começam dentro de casa. São os familiares mais próximos, por suas palavras, ou por seus silêncios quem se encarrega de queimar o filme do sujeito, detruir sua reputação, segregá-lo do clã familiar, como se fosse um leproso. Apesar de, graças a Deus, nunca ter chegado perto do drama da protagonista de “Há muito tempo te amo”, vivienciei julgamentos segregacionistas durante boa parte da minha vida. É incrível como ousadia e liberdade incomodam os covardes. Mas assim como a justiça, a verdade um dia vem à tona e os “fazedores de caveiras” perdem a voz.
Escrito por cris1949 às 23h02
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Anton Tchecov 
No primeiro capítulo de “Barbaridades Críticas”, livro que meu ex-marido Marcius Cortez acaba de publicar, ele compara Tchecov a outros escritores russos, com vantagens para o primeiro. Como nunca tinha lido nada desse autor, passei a semana garimpando contos dele na internet e gostei. Ontem, tive o prazer de conhecê-lo melhor no belo “Moscou” de Eduardo Coutinho. Documentário sobre os ensaios da peça “As três irmãs” pelo Grupo mineiro Balcão, o filme confirma tudo que Marcius comenta sobre o olhar do escritor russo sobre as coisas simples da vida. Segundo ele, Anton tinha como proposta não dar ênfase a problemas políticos, econômicos ou sociais. Ufa! Que alívio para esses nossos dias de pesadelo Sarnento. Na peça, o russo fala do dia a dia daquelas três irmãs cujo pai havia falecido no aniversário da caçula e a família havia se mudado pro interior. Ali tem um pouco da família de cada um de nós. E pra reforçar essa sensação, nada tão “família” quanto o delicioso sotaque mineiro do elenco. Alguém uma vez falou que se o artista quiser ser universal, deve falar do próprio quintal. “As três irmãs” é uma prova disso. E mais que universal, a peça também é atemporal. A fala do personagem que se apaixona por uma das irmãs mas não tem coragem de largar a mulher por culpa de ter dado uma mãe tão péssima pras filhas é o maior exemplo da perenidade da obra. Belo filme, bela peça. Quanto ao livro, Marcius, ainda não cheguei na segunda crônica. Mas só de ter me apresentado Tchecov, já valeu.
Escrito por cris1949 às 09h29
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Nome Próprio 
Como primeiro filme que eu consigo baixar inteirinho na internet e assistir em meu notebook, o destino não poderia ter reservado título melhor. Dirigido pelo experiente Murilo Salles, “Nome Próprio” navega quase o tempo todo na web. Com a cada vez mais madura Leandra Leal no papel de uma blogueira em busca de seu grande amor, não é uma daquelas babaquices de casais que se conhecem em chats ou fazem sexo virtual. A Camila Alves, inspirada em personagens da escritora Clarah Averbuck faz sexo sim. Mas na sua cama ou nas dos inúmeros namorados que arruma através do seu blog, ou não. Apesar do jeitinho de moderninha blasé, a garota é uma romântica inveterada. Não faz nada que as mulheres dos tempos pré-internet não tenham feito, inclusive eu. A diferença está só na forma. O desespero face o pé-na-bunda é o mesmo. A fantasia de acreditar que cada novo namorado é o homem da sua vida também é a mesma. Carência? perguntarão alguns. Pode ser. Afinal, nos 120 minutos do filme, a garota não recebe um telefonema da família. Mas também pode ser só uma maneira corajosa de lidar com os sentimentos. No fundo, todas nós somos acometidas, em algum momento da existência, do tal Complexo de Cinderela, tão propalado nos 80. Algumas beijam o primeiro sapo que aparece na frente e passam o resto da vida fingindo que ele é seu príncipe encantado. Principalmente se tiver grana. Outras preferem correr atrás dos seus sonhos, mesmo que seja pra descobrir um dia, que não passavam de quimeras. De uma maneira ou de outra, toda mulher tem um lado Camila, nem que seja enrustido nos devaneios. Claro, é um lado que assusta os homens. Principalmente aqueles que usam bombachas.
Escrito por cris1949 às 00h08
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À Deriva  Ao contrário do Zanin do Estadão que acha o último filme de Heitor Dhalia melhor que os anteriores, ainda prefiro Nina aos dois últimos. Tá certo que um roteiro inspirado em Dostoiekski, alguns dirão que já é meio caminho andado. Nem sempre. Às vezes um péssimo livro pode dar um filme excelente. Falar nisso, vi o trailler de um, baseado numa obra do Paulo Coelho que deu vontade de assistir. Mas voltando ao “Nina”, ali Heitor foi extremante feliz na adaptação. Começando pelo elenco onde Simone Spoladore dá um show de interpretação, à altura da parceira Miriam Muniz. “Cheiro de Ralo”. até gostei na época, mas hoje lembro dele com uma certa preguiça. Não aguento mais o excesso de estrelismo de Selton Melo. Quanto a “À Deriva”, confesso que esperava mais. Talvez até pela onda desencadeada pela participação do filme em Cannes. Não é ruim. A maneira com que Dhalia trata o tema da separação do casal e a forma com que ela afeta as crianças passa uma verdade. Tem até uma pitada de Freud na relação da adolescente com o namorado da amante do pai. Mas achei um filme meio arrastado. E pela primeira vez, senti na filmografia de Dhalia uns vícios da sua experiência publicitária. Pôr-de-sol, praia e adolescentes saltitantes estão por demais presentes em tudo quanto é comercial: de poupança a protetor solar. Tenho a impressão de que quando Heitor filmou Nina, ele ainda era criativo de agência. Se tivesse continuado, “À Deriva” talvez fosse melhor.Ou não.
Escrito por cris1949 às 22h56
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O cinema, o estômago e o fígado

Li em algum lugar que é preciso ter estômago pra digerir “Downloading Nancy”, o filme de estréia do sueco Johan Renck. Eu não tive. Com Maria Belo no papel de uma mulher abusada na infância pelo tio, o filme mergulha nesse nicho obscuro da internet onde pessoas desesperadas se encontram pra acabar de se destruir. Desprezada pelo marido, a infeliz recorre à web pra marcar encontros com outro sujeito. Até ai, nenhuma novidade. Só que Nancy não espera que o outro a faça feliz. Mas sim que a mate. E entre um encontro com o amante e uma sessão de psicanálise com a boquiaberta terapeuta, a moça ainda gostava de se mutilar. Não que não existam pessoas assim. Eu mesma conheci uma publicitária que era chegada a uma gilette. Um dia trocou-a por um Colt 45 e foi pro beleléu porque a filha preferiu passar o Natal com o pai e sua nova familia. Essas coisas embrulham o estômago. Pra meu alívio, o Telecine Cult estava exibindo “Um convidado bem trapalhão" de Blake Edwards. Chamei meu filho pra assistir. Eu só lembrava da cena hilária em que Peter Sellers caía na piscina de uma mansão em Hollywood, em meio a uma festa. Mas o filme é uma sucessão de trapalhadas do começo ao fim. Esse genio da comédia faz um indiano idiota, em meio a um rega-bofe na casa de um general. Rachamos o bico. Entre o personagem de Sellers e o garçon bêbado era dificil dizer qual o mais estabanado. Uma estética bem anos 70, o filme deságua, literalmente, num pastelão total com direito a elefante na piscina e banho de espuma coletivo. Bons tempos em que, ao invés de embrulhar o estomago, o cinema desopilava o fígado.
Escrito por cris1949 às 22h02
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Ser Digno de Ser 
Este é o título espanhol do belo filme do romeno Radu Mihaileanu, premiado em Berlim, em 2005. “Va, vis et deviens” conta a história de um garoto etíope que, em 1984, pega carona com os oito mil falashas, judeus negros da Etiópia, que fugiam do regime pró-soviético, via Sudão, em busca da terra prometida em Israel. Pra salvar sua vida, a mãe que já havia perdido um filho pros comunistas batiza-o de Salomão e o embarca clandestinamente num avião da chamada “Operação Moisés.” Esses etíopes se diziam descendentes da Rainha de Sabá e mantinham algumas tradições judáicas. Chegando em Jerusalém, o falso judeuzinho negro é adotado por um casal francês de esquerda e criado como filho. Mas Salomão se sente um peixe duplamente fora d’água. Único negro de uma família branca, Schlomo é obrigado a repetir a toda hora pras autoridades israelenses os nomes dos antepassados, Sara e Isac, pra confirmar a ascendência judáica. As coisas pioram quando os rabinos descobrem que o menino não é circuncisado. Mas pegam fogo mesmo quando, já adolescente, o neguinho de kipá engata um namoro com a linda filha do rabino local. Pra baixar a poeira, os pais adotivos enviam Salomão a Paris. Sete anos depois, ele volta com um diploma de médico debaixo do braço e muita vontade de rever a mãe verdadeira. E decide praticar sua medicina na terra natal. Não sem antes selar o compromisso com a linda Hanna, que há 10 anos o espera. Após a festança, com todos os Havanaguilla a que tinha direito, Schlomo confessa à amada seu segredo. Se tivesse confessado que era gay, a menina teria se emputecido menos. Nessa hora, a mãe adotiva aparece pra fazer o meio de campo e a paz conjugal é restabelecida. Daí pra frente o filme resvala pra pieguice. O encontro com a mãe na barraca do deserto tem pitadas de novela da Gloria Perez. Aliás, uma família negra com um pé na Rocinha e outro no Sudão pode ser um bom tema pra próxima novela da autora. Ela não adora uma ponte aérea intercontinental?
Escrito por cris1949 às 22h08
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O crítico de Bagé 
Sempre soube que os gaúchos eram machistas, mas a crítica de L. C. Merten sobre “De repente Califórnia” do diretor Jonah Markowitch é um verdadeiro tratado de homofobia. Apesar do estigma de filme gay, “De repente” não tem nada a ver com a baixaria que esse tipo de produção costuma mostrar. Uma espécie de “Brubeck Mountain” sobre as ondas, o filme trata de uma relação homossexual entre rapazes com a delicadeza que muitas vezes encontramos nos filmes sobre lésbicas, ou até mesmo sobre casais hetero. Mas apesar do foco no relacionamento entre Zack e Shown, o diretor discute outras questões que talvez tenham passado batido diante dos olhos dos machos apavorados. Com certeza eles não se tornariam boiolas de se prestassem atenção no relacionamento de Zach com a irmã abusadora e o fofo do sobrinho Cody. A irmã é uma puta folgada que explora os serviços de baby-sitter do protagonista pra correr atrás do primeiro macho que aparece. Zack, que é gente boa e louco pelo sobrinho, sacrifica sua vida numa lanchonete, em vez de cuidar do seu futuro, só pra não abandonar o garoto. E é justamente o namorado quem abre seus olhos pros abusos da irmã e o incentiva a ir atrás dos seus sonhos. Mas como o garoto não tem culpa da mãe que tem, os titios acabam adotando-o no final. Pra provar que mais valem 2 pais na mão do que uma mãe voando.
Escrito por cris1949 às 22h05
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Testemunha de Acusação 
Não sei se já havia assistido a esse filmaço de Billy Wilder. Tinha uma vaga idéia de que era um filme de tribunal e lembrava da figura marcante do personagem de Charles Laughton (quem esqueceria?). Mas não lembrava de o quanto Wilder tinha explorado, no filme, a veia cômica do rotundo ator. Com um humor hilário e ranzinza a la Paulo Francis, Laugton faz um advogado às vésperas da aposentaria por problemas de saúde, que resolve defender um cara de bobão acusado de ter matado uma ricaça. Advogado e platéia passam o filme inteiro acreditando que o cara era bobão mesmo. E que sua linda e loura esposa alemã, nada mais nada menos que Marlene Dietrich, era o cão. Mas, em se tratando de um roteiro baseado em Agatha Christie, o público não perde por esperar: um turning point atrás do outro. Obra de mestre! Não vou contar mais nada pra não estragar o prazer de quem ainda não assistiu a essa preciosidade de 1957. O Telecine Cult exibiu nessa sexta-feira. E as boas locadoras devem ter pra alugar.
Escrito por cris1949 às 23h26
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O pai de Daniel  Conheci o filho de Arnaldo Batista pequenininho, no colo de Marta, na psicodélica casa do Gernot, meu inesquecível amigo austríaco, quase tão Loki e seguramente tão sensível quanto Arnaldo. Ontem à noite, depois da pré-estréia do emocionante documentário sobre o cabeça dos Mutantes, alguém perguntou porque Daniel adulto não aparecia no filme. Arnaldo contou, então, que o garotinho loiro do filme, da idade do meu filho Pedro, se tornou rabino e hoje vive no exterior. Isso me lembrou o livro de Nilton Bonder, outro rabino, que fala de transgressões. O mundo precisa de loucos como Arnaldo. Como sempre, o Brasil só reconhece seus talentos depois que as celebridades lá de fora se curvam diante deles. Foi preciso o aplauso de Kurt Colbain e a admiração de Sean Lennon vir à tona, pra esse País de vira-latas reconhecer a genialidade de Arnaldo. O filme é sobre isso. Começa com a formação da banda e seu lançamento pro grande público no Festival da Record. Só a coragem de escalar aqueles meninos malucos pra tocar seu "Domingo no Parque" já justifica Gilberto Gil ter chegado onde chegou. A Tropicália, movimento nascido no seio da Ditadura Militar, foi semeada naquele palco. Grande Rogério Duprat, outro visionário. Assistir a esse filme me deu saudades daquela época e de muitas pessoas que convivi trabalhando em Propaganda. Não que nas agências não houvesse carreiristas e filhos da puta. Claro que havia, e de sobra. Mas a liberdade que a propria condição de criador impunha, acabava atraindo pra profissão pessoas sensíveis e antenadas. Temo que isso não aconteça mais. A Publicidade foi tomada pelo Business e os malucos deram lugar a nerds e almofadinhas, vazios e consumistas, que tem em Roberto Justos seu ícone máximo. Gente não menos insuportável que boa parte dos barnabés com quem convivo. O que muda é a embalagem, sempre carimbada com alguma griffe da moda: Osklen, Redley, Daslu...
Escrito por cris1949 às 10h49
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Win Wenders e aprendendo 
Dessa vez não vai dar pra concordar com L. C. Merten que adorou a vaia que “Palermo Shooting” recebeu em Cannes. Vai ver que o gaúcho pegou uma dor de barriga com algum escargot da Croisette. O último filme de Wenders é lindo. Uma fotografia sublime e uma trilha estonteante levam o espectador a viajar junto com aquele fotógrafo pelas ruas da decadente Palermo, que vendo no filme, me arrependi de não ter explorado mais. (Ao descer do navio, vindos de Nápolis, imediatamente alugamos um carro pra percorrer o interior da Sicilia). Até concordo que o discurso do protagonista diante da banalização da fotografia esteja meio manjado. Wenders, ídolo de 10 entre 9 cineastas da geração que eu namorei, casei e tive filhos, sempre foi um cineasta “cabeça”. Em alguns momentos, confesso que o acho meio chato. Como, às vezes, também acho Godard um mala e Glauber Rocha, um porre. (Ainda bem que nenhum ex meu lê esse blog!). Mas isso não é de hoje. Sempre foi. Vá lá que as drogas tenham mandando pro espaço uma fatia considerável dos seus neurônios. Mas o que sobrou ainda rende uma obra bem mais consistente que a de muitos fazedores de filmes que se apavoram ante o primeiro baseado. Quanto ao esconde-esconde com a morte, atire a primeira pedra quem, depois dos 50, já não tomou um golinho dessa água. Mais importante que a presença da morte, aliás simpaticíssima na pele do grande Dennis Hopper, é o diálogo do fotógrafo com a vida, representada pela linda restauradora de obras clássicas. É a jovem Flávia quem lembra ao dinâmico fotógrafo de moda que a vida pode ser vivida aos poucos, sem pressa, sem prazos pra serem cumpridos, sem reuniões pra serem agendadas e depois canceladas, sem estresse. Como é bom lembrar essas coisas. Nessas férias, estou adorando perder tempo. Sair de casa só pra ir ao sapateiro ou comprar agulha no bazar. Levar meu neto ao Parque da Mônica. Bater perna no Bom Retiro e depois comer uma deliciosa bureka na Casa Búlgara. Almoçar em casa e assistir sessão da tarde fazendo tricô. Coisas simples fazem a vida passar mais devagar. Quanto à dedicatória do filme a Bergman e Bertolucci, me desculpe o crítico do Estadão, mas o alemão tem todo o direito de dedicar seu filme a quem lhe der na telha.
Escrito por cris1949 às 19h41
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Trocadilho em chamas 
O título do filme de Guillermo Arriaga em inglês, "Burning plain" é um trocadilho com "Burning Plane" e também a chave da pegadinha com que o roteirista / diretor nos brinda em seu longa de estréia. Nada contra trocadilhos até porque como publicitária usei e abusei desse recurso. Mas não acho que a pegadinha tenha acrescentado muito ao primeiro filme do roteirista de "Amores Brutos", "21 gramas" e "Babel". Depois da fértil parceria com o também mexicano Alejandro González Iñárritu, a dupla se desentendeu e Arriaga enveredou por carreira solo. A exemplo da trilogia mencionada, "Planície em Chamas" abusa das idas e vindas, desta vez mais no tempo que no espaço, até porque, ao contrário dos filmes de Iñárritu, aqui não temos vários núcleos, apenas vários tempos do mesmo. Charlize Théron está linda como a garota traumatizada que vê a mãe queimar, literalmente, no fogo do inferno depois de ter pulado a cerca com um mexicano. Mas as armadilhas do roteiro acabam unindo a garota ao filho do amante da mãe e a história, daí pra frente, se complica um bocado. Uma Kim Bassinger madura e ainda bonita segura, com classe, o papel da esposa adúltera, mutilada e carente, que encontra nos olhos do amante o resgate pra sua auto-estima. Não dá pra dizer que o debut de Arriaga seja um "filmaço". Ele prova que um bom roteiro é apenas um dos ingredientes de um bom filme. Claro que ajuda. Mas ainda falta ao estreante, o que é muito compreensível, o timing da montagem do seu conterrâneo. Fora o elenco de estrelas como Brad Pitt, Gael Garcia Bernal, Sean Penn, Naomi Watts e Cate Blanchett, que por si só já garantem momentos de frisson. Não sei se faltou grana pra contratar galãs à altura de Charlise e Kim, ou se faltou mesmo foi a velha e boa "cancha" que só se adquire com o tempo. Por enquanto, como diretor, o bonitão que extasiou as platéias femininas no Flip e no Roda-Viva, continua sendo um ótimo roteirista.
Escrito por cris1949 às 21h54
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O Oscar entre a vida e a morte
 Apenas um ano separa as duas premiações: o alemão "Os falsários" levou o Oscar de melhor filme estrangeiro, no ano passado. O japonês "A partida" abocanhou a estatueta este ano. Enquanto o filme do austriaco Stefan Ruzowitzky, discute táticas de sobrevivência num campo de concentração nazista, a obra de Yojiro Takita se debruça de maneira emocionante sobre o espinhoso tema da morte. Baseado na história real de Adolf Burger, um dos prisioneiros "contratados" pela SS pra falsificar dinheiro pro III Reich, "Os falsários" mexe com questões morais. Pra escapar dos fornos de extermínio, aqueles judeus, tratados pior que cachorro pelos oficiais alemães, acabaram colaborando pra financiar a megalomania de Hitler. A Alemanha estava falida. Era com esse dinheiro "fabricado" que o insano continuava alimentando seus delírios de dominar o mundo. Quando Burger, o gráfico da equipe, começa a sabotar a produção dos dólares, atrai a desconfiança dos companheiros, apavorados face o cheiro de carne queimada que entrava pelas janelas do galpão. O filme remete a "A alma imoral", de Nilton Bonder, que li recentemente. O rabino fala sobre moralidade do corpo e imoralidade da alma, apontando a diferença entre o "correto" e o "bom". No caso do filme, ajudar o inimigo não era moralmente "correto". Mas era "bom", na medida em que garantia a sobrevivência por algum tempo. Quantas vezes agimos corretamente, observando regras sociais, familiares e religiosas, mas por dentro estamos loucos pra chutar o pau da barraca? No pensamento de Bonder, são esses chutes que levam o mundo adiante. Sem transgressões, a humanidade não teria evoluído. Pra quem tem alergia a regras como eu, a tese é bastante confortadora. Mas voltando aos melhores estrangeiros, o alemão nos leva a uma reflexão sobre como o certo e o errado podem ser relativos. Já o nipônico mostra como o tempo perdido em rusgas familiares um dia pode se transformar em culpas e ressentimentos diante de um adeus final. Também sublinha a importância da cerimônia de despedida, mais até pros vivos do que pros que se vão. E aí entendemos porque é tão importante pras famílias que os corpos das vítimas do voo 474 da Air Fance sejam resgatados.
Escrito por cris1949 às 16h18
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Feliz Natal
Assisti ontem ao filme de estréia do "bola da vez" Selton Melo. Decididamente, como diretor, o protagonista de "Meu nome não é Johnny" e "Cheiro do Ralo" continua sendo um ótimo ator. Aliás, existe um personagem secundário no filme, gordo e falastrão que me pareceu um alter-ego do diretor. "Feliz Natal" tem problemas técnicos. Apesar de ter consciência de que meus ouvidos não andam lá essas coisas, me pareceu que a trilha sonora está mixada muito mais alto que as falas, a ponto de muitas delas terem me escapado. Quero confirmar esse defeito com meus filhos, experts no assunto, mas garanto a vocês que em "Última parada 174" não perdi uma fala. Mas não é esse o pior defeito do filme. Ele é muito pretencioso pra uma estréia na direção. Aliás, humildade não parece ser uma característica do garoto que se revelou ao público em Auto da Compadecida. Planos ousados que poderiam revelar uma tentativa de fugir da mesmice não disfarçam a intenção de fazer um filme "cabeça". A montagem truncada também não contribui pro entendimento da história que pretende, nas entrelinhas, culpar o alcoolismo da mãe pela desagregação familiar. Famílias disfuncionais é o que mais tem neste País onde, ao primeiro sinal de frutação, corre-se pra garrafa. Mas filmar essa incomunicabilidade não acrescenta nada à percepção do problema. Uma lavagem de roupa-suja em alto estilo talvez levasse o espectador a uma reflexão. Mas pra isso Selton precisaria aceitar dividir os holofotes com um roteirista do porte de Bráulio Mantovani, de "Última parada 174".
Escrito por cris1949 às 17h05
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Última parada 174 
Na versão Barreteana do sequestro de ônibus que propagou a violência carioca pelo mundo, " parada" tem o sentido de "empreitada" da gíria das Comunidades. Apesar de não ser muito fã da cinematografia da família, gostei do filme. Mais do que do midiático episódio que estarreceu o mundo, Bruno trata da vida pregressa de seu protagonista. Impossível cruxificar aquele menino, nascido num tempo e num lugar onde crianças pobres são entregues à própria sorte. Depois de ter a mãe assassinada antes da adolescência, Sandro é adotado por tios que insistem pra que ele estude. Mas o garoto, que gosta de compor rap, não quer nada com as letras. Também, vai saber como era a escola! Analfabeto e iludido, atravessa a Baía de Guanabara pra realizar o sonho da mãe de "se dar bem" em Copacabana. Quase "se dá mal" na Candelária, reduto de crianças de rua onde aprende a cheirar cola, consumir drogas, beijar meninas e fugir da polícia. É ali também que a sorte passa por ele pela primeira vez. Sobrevivente do vergonhoso massacre da Candelária, Alessandro cai nas graças de tia Valquiria, militante de uma ONG, que também insiste pra ele estudar e conseguir um trabalho honesto. Quem disse que ele quer? Seduzido pela vida fácil de cantor de rap, Sandrinho acaba na Funabem depois de cometer assaltos no trânsito. Ali, conhece um xará com pedigree no mundo do crime. Alessandro 2 era filho do famoso "Meleca" do Comando Vermelho e de uma ex-viciada que se regenerou e virou evangélica. Numa armadilha do destino, a crente jura que Sandrinho é o filho que "Meleca" lhe tomou ainda no berço. Faz de tudo pra regenerá-lo. Mas ele vira as costas pra sorte pela segunda vez. Se sua cabeça estivesse menos "embarulhada" pelas drogas, talvez farejasse na opção evangélica da falsa mãe, a porta pro sonhado sucesso. Nada, hoje em dia, rende tanta grana quanto o mercado fonográfico evangélico. Crente acha pecado comprar cd pirata e alimenta a indústria. Se tivesse seu talento cooptado por Jesus, Sandrinho não ganharia nenhum VMB. Mas, em compensação jamais embarcaria naquele fatídico 174.
Escrito por cris1949 às 20h14
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